Quando pensamos em aprendizagem, é comum associarmos imediatamente à memória. Mas você sabia que existe um tipo específico de memória que influencia diretamente a forma como a criança aprende? Trata-se da memória de trabalho ou memória operacional, uma função essencial para o raciocínio, a resolução de problemas e a realização de tarefas escolares.
A memória de trabalho, sendo uma das habilidades das Funções Executivas, nos permite manter e manipular informações por um curto período de tempo, enquanto realizamos uma atividade. Está diretamente relacionada a várias competências escolares: copiar do quadro, compreender o que se lê, organizar o pensamento para escrever uma frase, entre outras. Quando há dificuldades na memória de trabalho, a criança pode apresentar comportamentos como esquecer instruções simples, não conseguir seguir uma sequência de tarefas ou parecer distraída, quando na verdade está mentalmente sobrecarregada. Por exemplo: quando uma criança copia um texto do quadro, ela precisa lembrar o que viu, manter essa informação ativa por alguns segundos, escrever e depois retornar ao quadro — e repetir o processo. Isso exige atenção e, principalmente, uma boa memória de trabalho.
Imagine também que a criança esteja resolvendo uma conta matemática simples como 24 + 17. Antes de colocar o resultado no papel, ela precisa lembrar do 4, somar com o 7, guardar o 1 do “vai um” e ainda lembrar que precisa somar os dois números da dezena. Tudo isso, sem anotar ainda. É a memória de trabalho que organiza essa informação mental temporária.
Essa função é fundamental para diversas habilidades acadêmicas, como leitura, escrita e matemática. Crianças com dificuldades nessa área podem apresentar sinais como: demora para seguir instruções com vários passos, esquecimento frequente de materiais escolares, perda do foco com facilidade, ou dificuldade para resolver problemas matemáticos que exigem várias etapas. Esses comportamentos são, muitas vezes, interpretados como “desatenção” ou “desinteresse”, mas podem sinalizar um funcionamento diferente da memória de trabalho e que precisa ser trabalhado.
Essa habilidade pode e deve ser estimulada e fortalecida com estratégias adequadas. A neuropsicopedagogia atua justamente nesse ponto, propondo atividades específicas e adaptadas. Jogos como “repita a sequência”, tarefas com instruções cumulativas, brincadeiras que envolvem seguir regras que mudam (como “siga o mestre” com variações), ou ainda jogos de memória com aumento gradual da complexidade, são apenas alguns exemplos. A prática constante e o acompanhamento adequado favorecem o progresso.
Além disso, é essencial o envolvimento da escola e da família. No ambiente escolar, professores podem ajudar fracionando as instruções em etapas menores, usando recursos visuais de apoio, e permitindo repetições. Em casa, os responsáveis podem oferecer estímulos lúdicos e manter um ambiente e rotina estruturados.
Devemos lembrar que a aprendizagem é um processo complexo e que cada criança desenvolve suas habilidades de maneira individual. Compreender o funcionamento do cérebro e das funções executivas nos permite planejar estratégias mais adequadas, baseadas em evidências científicas. Por isso, quero deixar hoje como indicação de leitura sobre a compreensão dos processos de aprendizagem (incluindo a memória) o livro “Como aprendemos? Uma abordagem científica da aprendizagem e ensino” de Héctor Ruiz Martín.
Aproveitem a leitura!
