
Costumo dizer que o desenvolvimento da comunicação é como uma escadinha, onde cada degrau é uma habilidade importante para dar o passo seguinte e subir mais alto, ou seja, para aumentar a complexidade da comunicação. Nosso olhar normalmente está no topo, na linha de chegada. No entanto, não há como pular etapas e é importante conhecer cada uma delas para oferecer o suporte necessário à sua criança.
O primeiro ano de vida – fase exploratória
Nessa primeira fase da vida do bebê apresenta predominantemente comportamentos reativos e de defesa, pois a criança ainda está aprendendo sobre o mundo. Nessa etapa o cérebro do bebê está focado em adquirir habilidades relacionadas ao corpo e ao movimento consciente, que irão oportunizar a exploração do meio e as experiências com os diversos sentidos. Habilidades como sentar, deslocar-se, equilibrar-se para andar, correr, subir e descer escadas, pegar e usar objetos bem como a possibilidade de expressar-se por gestos simples devem ser desenvolvidas nesse primeiro ano. Além disso, é esperado que o bebê escute e localize sons, compreenda a fala seguindo ordens simples e identificando coisas e pessoas ao seu redor, assim como que ele comece a falar algumas palavras relacionadas à sua rotina. Brincadeiras com expressões corporais, música e desenho devem ser estimuladas.
O segundo ano de vida – o crescimento da oralidade e da percepção do outro
Nessa fase a socialização começa a acontecer, pois a criança passa a perceber que existe ela e o outro. Sendo assim, as brincadeiras do outro passam a ser interessantes e é importante incentivar que crianças passem a trocar objetos. As crianças passam a imitar o que vêem o outro fazer e isso leva a ampliação do seu repertório de atividades e também à ampliação do repertório linguístico, pois a imitação verbal também está presente. Nessa fase a criança começa a compreender que o convívio social é permeado por regras que devem ser cumpridas e isso nem sempre é confortável. Por isso comportamentos de birra e enfrentamento podem acontecer, pois a criança ainda está desenvolvendo habilidades emocionais e de autorregulação, ao passo que sua compreensão de mundo ou flexibilização de pensamento ainda não são tão grandes.
As habilidades motoras também apresentam um salto significativo, de modo que pular, correr, chutar, seguir comandos, fazer movimentos corporais planejados deve fazer parte das atividades diárias para que cada vez mais a consciência corporal seja desenvolvida. Nessa fase também está previsto o controle de esfíncter, que junto com outras habilidades motoras, cognitivas e de linguagem, permitirá o desfralde.
Aos poucos também a criança começa a perceber melhor o ambiente e, com modelo adequado, percebe que o senso de organização é importante. E por estar mais madura do ponto de vista motor, já pode participar de rotinas e combinados como: ajudar a guardar os brinquedos, organizar seus pertences, levar roupas sujas para o cesto, etc.
Em relação a oralidade, nessa etapa do desenvolvimento ocorre um crescimento exponencial do vocabulário receptivo e expressivo, possibilitando que a comunicação seja cada vez mais eficiente. A experimentação do ambiente e objetos através do tato, olfato, paladar, audição e a visão estão em pleno desenvolvimento. Surge o interesse em ouvir histórias e a criança começa a compreender conceitos temporo-espaciais e percebe as características dos objetos separando-os por categorias.
O terceiro ano de vida: a evolução do brincar e as regras sociais
A brincadeira simbólica surge de fato aqui. A criança agora percebe que consegue criar novas brincadeiras e inserir outras crianças e adultos nelas. Seu senso de organização com seus pertences está bastante apurado. Passa a se conscientizar mais das regras sociais e entender combinados, sendo mais fácil sua relação com seus pares. As habilidades com seu corpo são desenvolvidas com maior autonomia, assim, ir ao banheiro, alimentar-se, vestir-se e tomar banho, por exemplo, são atividades que a criança já começa a querer realizar sozinha. Expressa-se com muita desenvoltura pois seu conhecimento de mundo está bastante desenvolvido, bem como as regras fonológicas e sintáticas já estão mais estabelecidas. É capaz de contar histórias e manter diálogos com seus pares comunicativos. Demonstra seus interesses por atividades como pintar, colar, manusear massinha de modelar, etc., explorando e criando com esses materiais. Noções de espaço, tempo e quantidade aparecem permitindo que o conhecimento acerca dos números e sequência de eventos sejam melhor compreendidos.
Entre 4 e 5 anos de idade: a generalização do conhecimentos desenvolvidos nessa primeira infância
Nesse último momento da primeira infância há a cristalização de diversas habilidades adquiridas até o momento e que serão base para toda a vida. Nessa fase a criança já desenvolveu suas principais percepções de mundo e valores morais. Cresce o interesse pela interação de modo geral, por seus colegas, pelo compartilhamento de atividades e de brinquedos. Já consegue resolver alguns dos seus conflitos sem a participação de um adulto. Em relação ao seu corpo, aparece a dominância lateral, a coordenação visuo-espacial e a criança passa a assumir a responsabilidade de muitas tarefas de autocuidado como escovar dentes, pentear os cabelos, guardar e organizar seus pertences tanto em casa quanto na escola. Expressa-se com frases bem formadas sintaticamente, com uma linguagem próxima a de um adulto. Inicia o discurso, toma a vez durante trocas dialógicas, faz perguntas e comentários pertinentes ao assunto discutido. Normalmente a criança gosta de ouvir histórias e de inventá-las, assim como já consegue diferenciar a representação gráfica do desenho. Há uma evolução nos traços e na representação gráfica, pois normalmente a criança já faz desenhos compreensíveis e também tenta escrever letras, principalmente relacionadas ao seu nome ou de pessoas próximas. Demonstra maior habilidade com música e dança. Deseja fazer experiências com os objetos verificando as modificações que acontecem. Deve ter boa socialização com o grupo de amigos já demonstrando suas preferências.
Após os 5 anos de idade, a criança segue evoluindo suas habilidades, refinando aquilo que já foi adquirido, ampliando sua capacidade estratégica e analítica, apropriando-se de um vocabulário mais rico e melhorando sua performance de comunicação, adaptando sua linguagem e postura comunicativa em diferentes situações.
Através desse pequeno resumo sobre o desenvolvimento das habilidades na primeira infância é possível pensar no que devemos oportunizar de vivências e experiências a nossas crianças, bem como compreender as atividades realizadas tanto na escola como no universo terapêutico.
Até o próximo encontro!
