Existe uma angústia no relato das famílias que percebem que o filho está “perdendo” conteúdos ou interações sociais porque parece estar sempre desconectado. Então, a dúvida surge: será que é TDAH?

É comum pensar no Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, já que se tem muitas informações disponíveis on-line. No entanto, nem todas são divulgadas com responsabilidade e podem causar confusão. Um diagnóstico requer muita cautela: A desatenção é um sintoma, um sinal de que algo não vai bem, mas ela não é exclusiva do TDAH.

Se não é um transtorno, o que pode ser ?


Antes de se pensar em um transtorno, é preciso entender o contexto ambiental em que essa criança está. Tudo ao seu redor interfere no seu desenvolvimento biológico, social e emocional. O que pode fazer a criança parecer desatenta pode ser:

1. Qualidade do sono: Sem um sono reparador, a capacidade de filtrar estímulos cai drasticamente. A criança não foca porque o cérebro está exausto.

2. Alimentação: Algumas alimentações podem ter efeito de causar oscilações de energia que se confundem com agitação ou letargia. Além disso, a falta de acesso a alguns nutrientes impactam diretamente a cognição.

3. Organização do ambiente: A falta de rotina previsível e o excesso de estímulos — especialmente telas e ruídos constantes — deixam a criança em estado de alerta ou sobrecarga.

4. Condição social: Crianças inseridas em ambientes de vulnerabilidade, ou onde as demandas da vida diária são estressantes para a família, podem ter sua atenção sequestrada pelas necessidades básicas ou pela tensão do ambiente.

5. Questões emocionais (medo, preocupação, estresse): Uma criança preocupada com brigas dos pais, com o desempenho escolar ou com questões sociais, está fadigada para prestar atenção na aula.

E se estiver tudo bem com o ambiente?

Quando se descartam os fatores ambientais e a criança continua “no mundo da lua”, acende-se o alerta para questões neurobiológicas. No entanto, o TDAH não é a única alternativa.

Por existirem tantas variáveis – do sono à ansiedade, do ambiente à genética -, o diagnóstico clínico precisa ser minucioso. Através de testes padronizados, observação clínica e conversa com a família, é possível compreender o perfil cognitivo da criança. O objetivo não é apenas dar um nome, mas entender como o cérebro daquela criança funciona.

Além disso, muitas vezes a dificuldade não é apenas em “focar”. É comum encontrarmos falhas na memória de trabalho (segurar uma informação na mente) ou na velocidade de processamento (tempo para reagir), ou até mesmo em outras áreas cognitivas.

A falta de atenção é um sintoma presente em diferentes diagnósticos. Uma investigação por meio da avaliação neuropsicológica é fundamental para diferenciar o diagnóstico, considerando outras possibilidades como autismo (TEA), transtorno do processamento auditivo central (TPAC), transtornos específicos de aprendizagem, ansiedade etc.

Quando se entende que a criança não vive no “mundo da lua” por desinteresse ou preguiça, mas porque existe uma barreira, seja  emocional, cognitiva ou física, é possível acolher ajudar em suas dificuldades.

A infância é um período de construção. Independentemente de existir um transtorno ou não, a mediação do adulto continua sendo essencial. A criança precisa do seu afeto e da sua paciência para aprender a se regular e se desenvolver. Nesse sentido, o laudo da avaliação neuropsicológica permite visualizar o melhor caminho para que sua criança alcance todo o seu potencial.

American Psychiatric Association. (2023). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed.

Dias, N. M., & Cardoso, C. O. (2019).Intervenção Neuropsicológica Infantil: Da Estimulação Precoce-Preventiva à Reabilitação. Pearson.

Até o próximo post!

Kananda Telski
Neuropsicóloga

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