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A culpa de não ter percebido antes: o que dizer para a mãe que acha que demorou demais

Depois de uma avaliação ou diagnóstico, muitas mães revisitam o passado perguntando por que não perceberam antes. Entenda por que os sinais nem sempre parecem sinais dentro de casa e como usar essa história a favor do seu filho.

Por master-evolvere

9 min de leitura

A culpa de não ter percebido antes: o que dizer para a mãe que acha que demorou demais

Talvez você já tenha feito isso: pegou o celular tarde da noite e começou a procurar vídeos antigos do seu filho.

Voltou naquele aniversário em que ele parecia não responder quando chamavam. Lembrou de uma fase em que falava pouco. Pensou na comparação com o filho de uma amiga que já fazia determinadas coisas na mesma idade. Recordou uma observação da professora, um comentário da sogra, uma frase de alguém da família que, naquela época, pareceu exagerada ou inconveniente.

Depois de uma avaliação, de um encaminhamento ou de um diagnóstico, essas cenas antigas podem ganhar um peso completamente diferente.

E então aparece uma pergunta difícil de silenciar:

“Como eu não percebi isso antes?”

Talvez junto dela venha outra, ainda mais dolorosa: “Será que eu demorei demais para procurar ajuda?”

Essa sensação é muito comum entre mães de crianças que recebem uma hipótese diagnóstica ou começam uma investigação do desenvolvimento. E ela costuma aparecer justamente porque, depois que você aprende o significado de determinados sinais, tudo parece muito mais evidente quando olha para trás.

Só que existe uma diferença importante entre reconhecer um sinal hoje, sabendo o que ele significa, e perceber esse mesmo sinal enquanto ele ainda estava acontecendo dentro da rotina da sua casa.

Dentro de casa, os sinais nem sempre parecem sinais

Quando profissionais avaliam o desenvolvimento de uma criança, não observam apenas se determinada habilidade existe ou não. Analisam frequência, qualidade, função, contexto, combinação entre habilidades e o modo como elas evoluem ao longo do tempo.

Para uma família, essa leitura naturalmente é diferente.

Você pode ter percebido que seu filho falava algumas palavras e entendido que a linguagem estava se desenvolvendo. Um fonoaudiólogo, porém, pode querer saber quantas palavras eram utilizadas espontaneamente, para quais funções comunicativas, como estava a compreensão, se havia gestos, iniciativa de comunicação, compartilhamento de interesses e progressão do repertório.

Da mesma forma, uma criança pode olhar para você, sorrir, demonstrar afeto e gostar da presença de outras pessoas e, ainda assim, apresentar dificuldades em aspectos específicos da comunicação social. Pode brincar com brinquedos, mas ter pouca variedade de brincadeiras. Pode reconhecer letras e números muito cedo e ter fragilidades importantes em linguagem, flexibilidade ou interação.

É por isso que alterações do neurodesenvolvimento nem sempre aparecem para a família como algo claramente “fora do esperado”.

Muitas vezes existem habilidades importantes convivendo com outras que ainda não se desenvolveram como seria esperado. Para reconhecer esse padrão, é preciso olhar para o desenvolvimento de maneira mais detalhada do que normalmente se faz no cotidiano.

Você também aprendeu a compreender seu filho muito antes de qualquer profissional

Existe outro aspecto que costuma tornar algumas dificuldades menos visíveis dentro de casa.

Ao conviver diariamente com uma criança, a família desenvolve uma capacidade enorme de antecipar necessidades e interpretar sinais muito sutis.

Você sabe qual copo ele quer sem que precise explicar. Entende para onde está apontando. Reconhece determinado som ou expressão. Sabe que ele ficará desconfortável se a rotina mudar e, naturalmente, organiza o dia para evitar esse problema. Percebe quando está cansado antes mesmo que peça para parar.

Nada disso é inadequado. É parte da intimidade construída entre vocês.

Mas essa adaptação também pode fazer com que determinadas dificuldades fiquem menos aparentes.

Uma criança que consegue ser compreendida em casa com poucos recursos comunicativos pode encontrar muito mais dificuldade quando precisa explicar algo para uma pessoa que não a conhece tão bem. Outra pode funcionar muito bem em uma rotina altamente previsível e apresentar desorganização importante quando entra na escola, onde existem mudanças, outras crianças, instruções coletivas e menor possibilidade de antecipação individual.

Às vezes, a escola é o primeiro lugar em que uma dificuldade fica realmente evidente não porque a família “não viu”, mas porque aquele ambiente exige habilidades que ainda não eram tão necessárias em casa.

A comparação com outras crianças também pode confundir

Talvez você tenha pensado no filho de uma amiga.

“Ele falava muito mais.”

“Ela já fazia isso sozinha.”

“Naquela idade, as outras crianças pareciam mais independentes.”

Comparações assim são inevitáveis. O problema é que elas também são pouco precisas para interpretar desenvolvimento.

As crianças não adquirem todas as habilidades exatamente no mesmo momento. Existe variabilidade e existe uma faixa de desenvolvimento esperada. Ao mesmo tempo, isso não significa que qualquer atraso deva ser explicado simplesmente dizendo que “cada criança tem seu tempo”.

Alguns sinais merecem investigação justamente porque determinada habilidade não está surgindo, está progredindo muito lentamente ou aparece de maneira qualitativamente diferente do esperado.

A dificuldade para uma mãe é saber onde termina a variação individual e onde começa algo que precisa de um olhar especializado.

Essa não é uma distinção simples.

E aqueles comentários que você ouviu e não levou adiante?

Depois que uma avaliação acontece, é comum lembrar de alguém que comentou alguma coisa antes.

Uma professora que perguntou sobre a fala.

Uma avó que achou determinado comportamento diferente.

Uma sogra que comparou com outra criança.

Talvez você tenha ficado incomodada. Talvez tenha pensado que estavam exagerando. Talvez tenha perguntado ao pediatra e recebido a orientação de esperar. Talvez simplesmente não tenha enxergado motivo suficiente para se preocupar naquele momento.

É muito fácil reinterpretar essas decisões depois que se conhece o resultado da história.

Mas comentários informais são difíceis de dimensionar. Alguns são relevantes. Outros são apenas comparações inadequadas, interpretações pessoais ou opiniões baseadas em pouco conhecimento sobre desenvolvimento infantil.

Por isso, a identificação precoce não deveria depender somente da capacidade da família de selecionar, entre todos esses comentários, qual deles representa realmente um sinal clínico.

Pediatras, escolas e profissionais que acompanham crianças também têm responsabilidade na vigilância do desenvolvimento, na comunicação clara com as famílias e nos encaminhamentos quando existem sinais persistentes. Instrumentos de rastreio e avaliações especializadas existem justamente porque nem sempre as alterações são óbvias na rotina.

O desenvolvimento acontece aos poucos — e isso também dificulta perceber quando algo não está acontecendo como esperado

Alterações súbitas chamam atenção.

Se uma criança utilizava muitas palavras e, de repente, deixa de utilizá-las, a mudança tende a ser facilmente percebida.

Mas muitas dificuldades do neurodesenvolvimento não se apresentam dessa maneira. Às vezes estamos falando de uma habilidade que deveria estar surgindo gradualmente e não surgiu, de um repertório que evoluiu mais lentamente ou de uma competência que apareceu, mas não adquiriu a complexidade esperada ao longo do tempo.

E perceber a ausência progressiva de algo exige conhecer muito bem aquilo que deveria estar aparecendo.

Na linguagem, por exemplo, uma família pode perceber apenas que “a fala está demorando”. Durante uma avaliação fonoaudiológica, porém, serão observados aspectos como compreensão, intenção comunicativa, gestos, imitação, interação, brincadeira, repertório de sons, palavras, combinações, funções comunicativas e evolução ao longo do desenvolvimento.

É uma análise técnica. Não é algo que se espera que uma mãe realize sozinha enquanto cria seu filho.

Saber que uma intervenção poderia ter começado antes pode doer

É possível reconhecer duas coisas ao mesmo tempo.

A intervenção precoce é importante porque os primeiros anos apresentam grande plasticidade e muitas oportunidades de aprendizagem. Quando existe uma alteração do desenvolvimento, identificar as necessidades e oferecer suporte adequado mais cedo pode fazer diferença no percurso da criança.

E também é verdade que saber disso depois pode ser doloroso.

Algumas mães escutam uma explicação sobre intervenção precoce e imediatamente transformam aquela informação em uma conta mental de meses ou anos que “perderam”.

O risco é passar a olhar para todo esse período apenas pelo que poderia ter sido feito de maneira diferente, ignorando um dado essencial: naquele momento, você não possuía necessariamente as informações que possui hoje.

Isso não apaga o passado e também não exige que você finja que essa constatação não machuca.

O que muda, a partir de uma avaliação adequada, é que você deixa de trabalhar apenas com suspeitas dispersas e passa a ter informações mais claras sobre as necessidades do seu filho.

E é essa informação que permite organizar os próximos passos com mais precisão.

Também não é necessário tentar compensar o tempo aumentando indiscriminadamente a quantidade de terapias ou começando qualquer intervenção disponível. Uma boa intervenção precoce continua precisando de critério, objetivos claros, profissionais qualificados e acompanhamento dos resultados.

Olhar para trás pode ajudar, desde que o passado seja usado como informação

Vídeos antigos, relatos da família, registros da escola e memórias sobre os primeiros anos podem ser muito importantes durante uma avaliação. Eles ajudam a reconstruir o desenvolvimento e entender quando certas habilidades começaram a aparecer, como evoluíram e quais mudanças ocorreram ao longo do tempo.

O passado, nesse sentido, é fonte de informação clínica.

Ele se torna mais difícil quando passa a ser usado apenas para reconstruir todas as ocasiões em que você acredita que deveria ter agido de outra maneira.

Hoje você vê essas cenas com outro repertório. Sabe o significado de palavras que talvez nunca tivesse ouvido antes. Consegue reconhecer padrões que antes pareciam acontecimentos independentes. Tem profissionais ajudando a organizar essas informações.

É essa diferença de conhecimento que faz algumas coisas parecerem tão óbvias agora.

Se houve um atraso na identificação, ele precisa ser considerado na história da criança, mas não precisa ocupar todo o espaço daquilo que acontece daqui para frente. O desenvolvimento continua acontecendo, novas habilidades continuam podendo ser construídas e as decisões tomadas agora ainda têm muito peso.

No Evolvere Neurodesenvolvimento, sabemos que receber uma preocupação ou um diagnóstico sobre o desenvolvimento de um filho também modifica a maneira como a família olha para a própria história. Por isso, avaliação e intervenção não deveriam se limitar à criança: a família precisa compreender o que está sendo observado, ter espaço para fazer perguntas e participar das decisões que serão tomadas ao longo do processo.

Se você tem dúvidas sobre o desenvolvimento do seu filho ou recebeu recentemente uma orientação para investigar alguma habilidade, converse com a equipe do Evolvere pelo WhatsApp (48) 3771-0300.

Equipe editorial Evolvere

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