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O que a escola percebe primeiro quando há sinais de autismo?

Brincadeira, comunicação, instruções coletivas, mudanças de rotina e recreio: veja o que a escola costuma perceber primeiro quando há sinais de autismo e o que fazer quando ela levanta essa possibilidade.

Por master-evolvere

14 min de leitura

O que a escola percebe primeiro quando há sinais de autismo?

Muitas famílias chegam a uma avaliação do desenvolvimento depois de ouvirem uma frase parecida na escola: “Estamos percebendo algumas diferenças no comportamento dele em relação às outras crianças”. Às vezes, a observação vem acompanhada de exemplos bastante objetivos; em outras, aparece inicialmente como uma sensação da professora de que aquela criança precisa de mais ajuda para participar da rotina, brincar com os colegas ou lidar com determinadas situações.

Essa conversa pode ser desconfortável para a família, principalmente quando aquilo que a escola descreve não parece acontecer da mesma forma em casa. É comum ouvir relatos como: “Mas ele fala muito conosco”, “em casa ele brinca”, “com os primos ele interage” ou “ele sabe tudo o que queremos perguntar”.

Essas informações são importantes e não precisam contradizer a percepção da escola.

Casa e escola são ambientes completamente diferentes do ponto de vista do desenvolvimento infantil. Em casa, a criança está cercada de adultos que a conhecem profundamente, entendem sua forma de comunicação, antecipam algumas necessidades e organizam uma rotina relativamente previsível. Na escola, ela precisa lidar com dezenas de estímulos simultaneamente, instruções coletivas, outras crianças com interesses próprios, mudanças de atividade, espera, negociação e uma quantidade muito maior de regras sociais que nem sempre são explicitadas.

Por isso, quando existem sinais de autismo na escola, eles nem sempre aparecem porque a escola “enxerga algo que a família não viu”. Muitas vezes, o ambiente escolar simplesmente exige habilidades que ainda não haviam sido tão testadas em outros contextos.

Por que algumas dificuldades aparecem primeiro na escola?

O desenvolvimento infantil não pode ser avaliado apenas observando o que uma criança consegue fazer em uma situação individual.

Uma criança pode compreender perfeitamente quando a mãe diz “pegue seu sapato e vamos sair”, mas apresentar dificuldade para acompanhar uma instrução dada pela professora a vinte alunos ao mesmo tempo. Pode conversar longamente com adultos sobre assuntos de seu interesse, mas não saber como entrar em uma brincadeira que já começou. Pode brincar de forma muito adequada com um irmão mais velho, que naturalmente organiza a interação, mas ficar perdida diante de crianças da mesma idade que esperam reciprocidade e negociação.

É por isso que a escola oferece informações tão valiosas para uma avaliação do desenvolvimento.

No autismo, as características centrais envolvem diferenças persistentes na comunicação e interação social associadas a padrões restritos ou repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Essas manifestações podem aparecer de formas muito diferentes conforme idade, linguagem, capacidade cognitiva e contexto em que a criança está inserida.

Em crianças com boa linguagem oral e capacidade acadêmica preservada, por exemplo, algumas dificuldades sociais podem se tornar realmente perceptíveis apenas quando as relações passam a exigir mais iniciativa, flexibilidade e interpretação do comportamento das outras pessoas.

Por isso, a pergunta não deveria ser apenas “ela faz isso em casa também?”, mas “quais habilidades esse ambiente está exigindo e como a criança responde quando essas habilidades são necessárias?”.

A escola pode perceber diferenças na forma de brincar antes mesmo de existir uma queixa acadêmica

Na educação infantil, uma das fontes mais ricas de informação é a brincadeira.

Brincar com outras crianças exige muito mais do que estar fisicamente próximo delas. É necessário perceber o que o outro está fazendo, entrar na atividade sem interrompê-la, propor ideias, aceitar propostas diferentes, dividir materiais, adaptar o próprio comportamento e construir um enredo em conjunto.

Uma criança pode gostar de ficar perto dos colegas e ainda ter dificuldade para participar efetivamente da brincadeira.

Por exemplo, pode acompanhar o grupo durante o recreio, mas sempre repetir exatamente a mesma sequência de brincadeiras. Pode insistir para que os colegas interpretem determinados personagens e se desorganizar quando alguém modifica o roteiro. Em outras situações, pode ficar observando as crianças durante muito tempo sem conseguir iniciar a interação.

Também existem crianças que brincam muito bem quando um adulto organiza a atividade, mas apresentam pouca autonomia quando precisam negociar diretamente com os pares.

Esse tipo de observação é muito mais informativo do que simplesmente dizer que a criança “brinca sozinha” ou “não interage”.

A American Academy of Pediatrics destaca diferenças no interesse por outras crianças, na atenção compartilhada, no uso de gestos e na brincadeira simbólica entre aspectos que podem estar presentes precocemente no autismo, embora nem sempre sejam facilmente percebidos fora de uma observação cuidadosa.

Uma criança pode falar muito e ainda apresentar dificuldades de comunicação na escola

Esse é um dos pontos que mais confundem famílias.

Quando pensamos em autismo, ainda existe uma tendência de associar dificuldades de comunicação apenas ao atraso de fala. Mas comunicação social envolve habilidades muito mais amplas.

Uma criança pode utilizar frases complexas, ter vocabulário excelente e até demonstrar conhecimentos acima do esperado para a idade, mas encontrar dificuldade para sustentar uma conversa recíproca, perceber quando o interlocutor quer falar, ajustar aquilo que diz ao contexto ou compreender informações que não foram expressas de maneira literal.

Na escola, essas diferenças costumam ficar mais evidentes porque a comunicação precisa ser utilizada o tempo inteiro para diferentes finalidades.

A criança precisa pedir ajuda, responder a uma pergunta que não escolheu, ouvir a opinião de um colega, compreender uma brincadeira, resolver um conflito, acompanhar uma conversa em grupo e fornecer informações suficientes para que outra pessoa entenda aquilo que está dizendo.

Pode acontecer, por exemplo, de uma criança conversar longamente com a professora sobre dinossauros e parecer extremamente comunicativa, mas ter dificuldade para responder quando um colega pergunta o que ela fez no final de semana. Em outra situação, pode interromper constantemente as conversas porque ainda não percebe bem os sinais que indicam sua vez de falar.

Os critérios diagnósticos do autismo consideram justamente aspectos como reciprocidade socioemocional, uso de comunicação verbal e não verbal e capacidade de desenvolver e compreender relações.

Por isso, uma boa observação escolar não deveria registrar apenas se a criança “fala” ou “não fala”. É necessário compreender como ela utiliza a comunicação nas relações.

Instruções coletivas podem revelar diferenças que não aparecem em casa

Outro relato frequente das escolas é: “Ele precisa que a professora repita tudo individualmente”.

Essa informação merece ser analisada com bastante cuidado porque pode ter diferentes explicações.

Em uma sala de aula, quando a professora diz “todo mundo vai guardar o material e sentar no tapete”, a criança precisa perceber que aquela instrução dirigida ao grupo também se aplica a ela. Precisa interromper aquilo que estava fazendo, compreender o comando, observar o comportamento dos colegas e iniciar uma nova ação.

Algumas crianças só respondem quando a professora se aproxima, chama seu nome e repete a instrução diretamente.

Isso não significa automaticamente autismo. Dificuldades atencionais, de linguagem receptiva, processamento ou organização também podem produzir comportamentos semelhantes.

Mas, quando esse padrão aparece junto a outras diferenças de comunicação social, flexibilidade e participação, ele passa a ser uma informação importante dentro do conjunto.

É por isso que avaliações de desenvolvimento precisam integrar diferentes áreas. O comportamento que observamos na superfície nem sempre revela sozinho qual habilidade está comprometida.

Mudanças de rotina costumam ser muito reveladoras

Outro momento em que a escola costuma perceber diferenças é durante as transições.

Na infância, a rotina escolar é cheia delas: guardar o brinquedo para fazer uma atividade, sair da sala para o parque, interromper o recreio, receber um professor substituto, participar de uma festa, mudar de sala ou simplesmente descobrir que algo previsto para aquele dia foi cancelado.

Para algumas crianças, essas mudanças são facilmente assimiladas. Outras precisam de maior previsibilidade e apresentam sofrimento significativo diante de alterações.

Uma professora pode perceber, por exemplo, que a criança aceita muito bem o dia quando tudo acontece exatamente como esperado, mas se desorganiza intensamente quando a aula de educação física muda de horário. Pode repetir várias vezes a mesma pergunta, insistir em realizar a sequência anterior ou apresentar grande dificuldade para retomar as atividades depois da mudança.

A inflexibilidade diante de rotinas, a dificuldade com transições e o sofrimento diante de pequenas mudanças estão entre os padrões comportamentais considerados na avaliação do autismo.

Mais uma vez, o ponto não é considerar toda criança que gosta de rotina como autista. O que interessa é a intensidade, a frequência e o impacto dessa necessidade de previsibilidade sobre a participação.

O recreio pode mostrar mais do que a sala de aula

Curiosamente, um dos momentos mais informativos sobre desenvolvimento social pode ser justamente aquele em que aparentemente existe menos estrutura: o recreio.

Durante uma atividade acadêmica, a professora organiza a turma, define o que será feito e estabelece regras claras. No recreio, grande parte dessa estrutura desaparece.

A criança precisa decidir para onde ir, encontrar parceiros, iniciar uma brincadeira, entender o que os outros estão fazendo, negociar regras e acompanhar mudanças que surgem espontaneamente.

É justamente aí que algumas diferenças ficam muito claras.

Uma criança pode ter excelente desempenho acadêmico e passar todos os recreios andando sozinha pelo pátio. Outra pode querer participar das brincadeiras, mas entrar de maneira inadequada, pegando objetos sem combinar ou tentando controlar o comportamento das outras crianças. Uma terceira pode seguir sempre o mesmo colega e não conseguir reorganizar-se quando ele decide brincar com outra pessoa.

Essas observações não servem para diagnosticar. Servem para compreender como a criança utiliza suas habilidades sociais em uma situação natural.

Revisões sobre observação de crianças autistas em ambientes educacionais inclusivos destacam justamente a importância de avaliar iniciativas, respostas, parceiros de comunicação e o contexto em que as interações ocorrem, porque uma simples contagem de comportamentos sociais pode não representar adequadamente a qualidade da participação.

A escola também pode perceber interesses ou comportamentos muito rígidos

Algumas características podem aparecer durante atividades estruturadas.

Uma criança pode demonstrar conhecimento excepcional sobre um assunto específico e tentar direcionar constantemente as conversas para aquele tema. Outra pode se preocupar intensamente com a ordem dos objetos, precisar realizar uma atividade sempre da mesma forma ou repetir determinadas falas em situações semelhantes.

Em crianças menores, também podem aparecer padrões repetitivos de brincadeira, movimentos corporais repetitivos ou exploração muito particular de objetos.

O que precisa ser observado não é simplesmente se existe repetição.

Crianças repetem brincadeiras porque repetição também faz parte da aprendizagem. Gostam de histórias conhecidas, pedem a mesma música e atravessam fases de interesse intenso por determinados assuntos.

A informação clínica está na qualidade desse padrão: qual é a intensidade? Existe flexibilidade? A criança tolera interrupções? Esse comportamento interfere em outras experiências? Há grande sofrimento quando algo não acontece da maneira esperada?

É a combinação dessas informações que começa a produzir um retrato mais consistente do desenvolvimento.

A diferença entre “não querer” e “não conseguir” precisa ser investigada

Talvez uma das contribuições mais importantes da escola seja justamente permitir que comportamentos inicialmente interpretados como oposição sejam analisados com mais profundidade.

Uma criança pode ser descrita como “teimosa” porque se recusa a trocar de atividade, quando na realidade apresenta grande dificuldade com transições. Pode parecer “mandona” porque tenta controlar todas as brincadeiras, mas talvez tenha dificuldade para lidar com a imprevisibilidade criada pelas ideias dos colegas. Pode ser considerada “desinteressada” porque não acompanha instruções coletivas, quando ainda não compreende bem que aquela comunicação também é dirigida a ela.

Isso não significa que toda dificuldade comportamental tenha uma causa relacionada ao autismo. Crianças podem recusar, testar limites e aprender comportamentos que são mantidos pelas consequências que produzem.

O raciocínio clínico precisa justamente distinguir essas possibilidades.

Em desenvolvimento infantil, saber o que a criança fez é apenas o começo. Também precisamos compreender em que contexto aconteceu, o que veio antes, qual habilidade a situação exigia e que consequências aquele comportamento produziu.

A escola não diagnostica autismo — mas suas observações podem ser decisivas

Professores não têm a função de diagnosticar transtorno do espectro autista.

Ao mesmo tempo, seria um erro desconsiderar suas observações.

A escola acompanha a criança durante muitas horas, em situações variadas e ao lado de outras crianças da mesma faixa etária. Isso oferece uma referência de desenvolvimento que muitas vezes a família não possui dentro de casa.

Um professor pode não saber exatamente por que determinado comportamento acontece, mas consegue perceber que aquela criança precisa de muito mais ajuda do que os colegas para uma determinada habilidade.

É por isso que descrições concretas são tão valiosas.

“Ele tem dificuldade de socialização” fornece pouca informação.

“Durante o recreio, permanece próximo às crianças, observa as brincadeiras, mas raramente inicia interação. Quando outra criança o convida, participa por alguns minutos e depois volta a brincar sozinho” oferece um material completamente diferente para uma avaliação.

Quanto mais a escola descreve aquilo que efetivamente observa, menos dependemos de interpretações vagas.

O que fazer quando a escola levanta a possibilidade de autismo?

Receber essa observação pode gerar preocupação, resistência e até uma sensação de que a escola está precipitando conclusões.

Mas ouvir a escola não significa aceitar automaticamente uma hipótese diagnóstica.

Significa recolher informação.

O primeiro passo pode ser pedir exemplos. Em quais situações isso acontece? É frequente? Desde quando? Como a criança reage? O que facilita sua participação? Como ela interage no recreio? Como responde às mudanças? Precisa de mais ajuda que os colegas da mesma idade?

Depois, essas informações precisam ser integradas ao que a família observa e à história do desenvolvimento.

Se existem diferenças persistentes na comunicação social, interação, flexibilidade, comportamento ou interesses, uma avaliação especializada pode ajudar a compreender melhor o quadro.

O diagnóstico de autismo é clínico e depende da integração entre história do desenvolvimento, observação e informações obtidas em diferentes contextos; nenhuma característica isolada ou instrumento isolado determina o diagnóstico.

Essa é justamente uma das razões pelas quais a participação da escola pode ser tão importante em uma boa avaliação.

Quando escola e família enxergam crianças diferentes

Talvez esta seja uma das situações que mais gera dúvida: “Na escola dizem que há dificuldades, mas em casa ele é completamente diferente”.

Isso pode acontecer.

E, em vez de escolher qual ambiente está “certo”, precisamos investigar por que a criança funciona de maneira diferente em cada um deles.

Talvez em casa existam muito menos exigências sociais. Talvez os pais compreendam sua comunicação mesmo quando ela é pouco clara para pessoas menos familiares. Talvez a rotina seja altamente previsível. Talvez irmãos mais velhos organizem as brincadeiras. Ou talvez a própria escola esteja observando um comportamento muito específico daquele contexto.

Todas essas hipóteses precisam ser consideradas.

Uma avaliação de qualidade não deveria tentar encaixar a criança em uma lista de sintomas. Ela precisa compreender como seu desenvolvimento se organiza nos diferentes ambientes da vida real.

No Evolvere Neurodesenvolvimento, consideramos as informações escolares parte importante desse processo. Quando necessário e autorizado pela família, nossa equipe conversa com a escola, analisa relatórios, participa de reuniões e integra essas observações à avaliação clínica, buscando compreender não apenas quais comportamentos aparecem, mas quais habilidades podem estar por trás deles.

Se a escola começou a trazer observações recorrentes sobre a comunicação, as brincadeiras, a interação com outras crianças, a flexibilidade ou a autonomia do seu filho, isso não significa que exista automaticamente um diagnóstico de autismo. Significa que existe uma informação sobre o desenvolvimento que merece ser compreendida.

E, quando família, escola e profissionais conseguem olhar para essas informações em conjunto, a pergunta deixa de ser simplesmente “quem está certo?” e passa a ser uma pergunta muito mais útil: o que essa criança está nos mostrando sobre a forma como ela se desenvolve e sobre o suporte de que pode precisar?

Referências

  • CDC — cdc.gov/autism/signs-symptoms

  • American Academy of Pediatrics — publications.aap.org/pediatrics/article/145/1/e20193447/36917/Identification-Evaluation-and-Management-of

  • American Academy of Pediatrics — publications.aap.org/patiented/article-pdf/doi/10.1542/ppe_document144/1462377/ppe_document144_en.pdf

  • CDC — cdc.gov/autism/hcp/diagnosis/index.html

  • PubMed — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38419860

Equipe editorial Evolvere

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